liquescendo

salva-me!

entre teus dentes pintados de tempo

taciturno. Salva-me, agora que estou nua

agora! antes que se faça noite

antes da morte

da morte do amor

antes da interrupção do fluxo de mim

salva-me!

dá-me a mão, respira-me!

enquanto o vento ainda sopra

a favor

.

mundo de esperas, este mundo

mundo das fomes, da solidão

Parcas em pleno ofício

tessitura e corte de incontáveis cordões…

solta tua linha! voa! abandona-te em mim

enquanto a vida nos arremessa

em seus ciclos

.

levanta-te! ventila os dias

abre-te para os meus gritos

antes que o fim me alcance

abre-te! enquanto eu plena e azulada

escorro entre os dedos

de teus pés e mãos

 

salvo

by Jacek Yerka

os salva-vidas estão todos ao telefone

o mar pra lá de azul disfarça bem

as sobrecargas   o sal

o afogado

já faz parte da paisagem

o tempo se apressou em tirar dele

a roupa de mergulho

e agora?

o que fazer com as horas

que insistem em viver?

o relógio caro comprado a vista

é pontual

impermeável

.

agora entendo quando me dizem que tudo é uma coisa só

que todos são

um

cardume se aproxima

sou peixe

sôfrego

não sei como dizer

esse amargo na boca

o gosto de lodo poeira

lembretes

em velhos quadros

aviso de dias em preto e branco

.

sei como dizer

que vim de terras  áridas

e salas vazias

onde sonhos não passam

de paisagens

frequentadas durante o sono

.

não obstante

eu lua minguante

cortei sensos expectativas

e em generosas fatias

devoro o mundo

 

selvagem

enquanto as águas do tempo

cozinham todas as coisas

eu sigo em paz

.

enquanto as marés

trazem e levam

os dias e as noites

me mantenho forte

.

enquanto a águia sobrevoar meus céus

vou decifrando

os mistérios de meu caminhar

.

enquanto a luz

me preencher

vou seguindo

amando o vento

.

enquanto o soar dos tambores

e a chuva dos maracás

acelerarem meu coração

me deixo emocionar

.

espalho meus olhos

nos rios

na sabedoria das árvores

leio todos os pássaros

encantada

tocada pela grandeza

que Sua música abriu em mim

agridoce

sinto saudades de alguém

algo que não conheço

insisto em identificar um rosto

uma expressão um toque

mas

me perco em quedas

pistas ilusórias

raposas

em campos de trigo

.

pareço alguém 

outra

não sou eu

e tendo a me desgastar

em solitárias construções

de tronos e  altares

adorando falsos deuses

.

não sei por que

não entendo

o que me faz perder

preciosidades

tempo

cultivando decepções

.

me prendendo

em pseudos nós

entre pessoas e punhais

que me desarticulam

.

mas é que tudo é tão dúbio 

são tantas as tocaias

e armadilhas acontecendo

costas afora…

.

talvez

não (?)

deva

embaralhar ordens

começar pelo meio

ir atrás voltar

insistir em  encontrar

por que de repente

o Amor definitivamente

não é

um lugar…

seguro

by Leslie Ann O’Dell

sinto-me como uma prateleira

segurando  frascos e ditos vazios

potes objetos sem importância

coisas que poderiam estar em outro lugar

.

por mim passam os dias

a poeira me cobre  a superfície polida

disfarça a dor de bases fincadas

em composições de cimento e pedra

.

suporto caixas   pessoas fechadas

submeto sentimentos  ao tempo

coleciono detalhes inúteis

e percebo que

acima e  abaixo de minhas interferências

a Vida simplesmente acontece

diurna

by art for adults (tumblr)

em noites de neon e sombras

me entrego a outro brilho

desejo pausas pensamentos soltos

fujo das reflexões escuras águas

.

em noites assim eu sonho

a contra-mão me leva viajo

carregada de variáveis

incógnitas impermanentes

.

infelizmente insisto e concluo

que no fim tudo passa some

vira pó em lembranças alheias

.

em dias de calor e solidão quase estanco

desenho poemas respiro fundo

e catalogo inúteis  sensações