quintessencia

de quantas caras preciso pra sobreviver no mundo?

como aparentará minha fantasia

tecida de poesia no trançado dos versos

não fosse sua sutil presença, o que me restaria ser?

teu gosto

adstringente a desinflamar o meu sistema

nervoso?

.

sinto

estou presa neste mundo

por tempo indeterminado

tenho quisto voar

ao longo das décadas

mas tive que aprender a me acostumar

com a caminhada

.

vivo  sub   consciente

até esbarrar em algo

um objeto qualquer

no meio da casa

.

quisera saber

como será a última visão que se tem deste mundo?

o que veem os olhos

antes de fecharem pela última vez?

.

já sei já sei

não devo me enredar em tanta filosofia

aproveitarei a noite

que se fez de novo

e dormirei para nunca mais acordar

alada

ouvi tuas asas batendo muito perto

senti intensamente o vento de seu farfalhar

abri os olhos e as vi. Eram inefáveis, grandes

manchadas de furta-cor

.

ouvi-as sacudindo a atmosfera

e na penumbra de meu abajur

belas, relanceavam

.

ouvi tuas asas entre os sons lá de fora

e as vozes que falam em mim

ouvi choro e riso, crianças e pássaros

.

ouvi-as alvoroçadas, intenso temporal

e entre elas, sonâmbula, acordei.

salvo

by Jacek Yerka

os salva-vidas estão todos ao telefone

o mar pra lá de azul disfarça bem

as sobrecargas   o sal

o afogado

já faz parte da paisagem

o tempo se apressou em tirar dele

a roupa de mergulho

e agora?

o que fazer com as horas

que insistem em viver?

o relógio caro comprado a vista

é pontual

impermeável

.

agora entendo quando me dizem que tudo é uma coisa só

que todos são

um

cardume se aproxima

sou peixe

meteoro lógica

by Jacek Yerka

olho pro céu

arrisco previsões

e resmungos poéticos

sussurrados entre dentes

pra ninguém

além

de você

ouvir

.

abro a casa aumento a música

visto pele de musa

sou Morgana

mística   

encantada

ou apenas a namorada

a mortal que o cérbero ainda não despedaçou

.

Lily vestida para  Mayakovsky

Dulcineia del Quixote

enfrentando moinhos séculos 

coisas de amor

e alguns outros demônios

.

sou brisa terna que te acompanha

que do seu canto faz dança

buracos no tempo

interferindo na paisagem

com trevos e lençóis de flor

.

e nesse cenário iconoclasta

troco as cortinas por delicada fumaça

e trago

no cheiro do incenso

sorrisos

vaga lumes

doses homeopáticas de luz