morte

sei que estais por perto

que circundas sorrateira

o dia   a noite

as madrugadas

sei que estais logo depois do ocaso

de acaso por vezes te disfarças

mas nunca enganas

pra onde levas aqueles que beijas?

quais os teus encantos ?

por que te vestes do que não és?

por que recorres a dor, se nem precisas?

por que passeias pelas cabeças e corações trazendo tanto pavor

se és a única certeza que carregamos?

o que a vida é para ti?

o contraste que precisas para se sobressair?

ou o lugar por onde passeias sorridente?

porque não te encontramos na escola?

por que não sabemos lidar contigo?

por que nos transforma em crianças apavoradas?

és amiga do senhor dos medos?

mas o que há depois dele?

não podes nos contar?

o que seria de nós sem tu?

a vida seria insuportavelmente inacabável?

perambularíamos como vampiros sem fim?

que fim teria tudo?

enfim

quando for a hora minha e tua

quero pintar meus olhos de negro e te encarar de frente

provavelmente lutarei

não me leve a mal

não me ensinaram a morrer

quintessencia

de quantas caras preciso pra sobreviver no mundo?

como aparentará minha fantasia

tecida de poesia no trançado dos versos

não fosse sua sutil presença, o que me restaria ser?

teu gosto

adstringente a desinflamar o meu sistema

nervoso?

.

sinto

estou presa neste mundo

por tempo indeterminado

tenho quisto voar

ao longo das décadas

mas tive que aprender a me acostumar

com a caminhada

.

vivo  sub   consciente

até esbarrar em algo

um objeto qualquer

no meio da casa

.

quisera saber

como será a última visão que se tem deste mundo?

o que veem os olhos

antes de fecharem pela última vez?

.

já sei já sei

não devo me enredar em tanta filosofia

aproveitarei a noite

que se fez de novo

e dormirei para nunca mais acordar

alada

ouvi tuas asas batendo muito perto

senti intensamente o vento de seu farfalhar

abri os olhos e as vi. Eram inefáveis, grandes

manchadas de furta-cor

.

ouvi-as sacudindo a atmosfera

e na penumbra de meu abajur

belas, relanceavam

.

ouvi tuas asas entre os sons lá de fora

e as vozes que falam em mim

ouvi choro e riso, crianças e pássaros

.

ouvi-as alvoroçadas, intenso temporal

e entre elas, sonâmbula, acordei.

salvo

by Jacek Yerka

os salva-vidas estão todos ao telefone

o mar pra lá de azul disfarça bem

as sobrecargas   o sal

o afogado

já faz parte da paisagem

o tempo se apressou em tirar dele

a roupa de mergulho

e agora?

o que fazer com as horas

que insistem em viver?

o relógio caro comprado a vista

é pontual

impermeável

.

agora entendo quando me dizem que tudo é uma coisa só

que todos são

um

cardume se aproxima

sou peixe