aplascentada

acordei com a cabeça doendo

sentindo o peso da madrugada rastejante

sono rasteiro  inquieto

o cheiro da morte rondando tudo

a carne fria

os pés ainda manchados de sangue

a anemia aguda

a boca branca

o sangue em bolsas

descendo em gotas

pintando de bordô os lados de dentro

as rezas escorrendo pelas paredes

o terror impregnado em cada hora

a arrastar o tempo

dor em toda parte

inchaço palidez

algo descolou

.

tudo aqui é tristeza  pavor

olhos vermelhos    chorosos

o medo na espreita a todo instante

enquanto enfeites de porta povoam o corredor estéril

com nomes de crianças

que chegaram em paz

.

foi tudo assim, rápido demais

por um triz

por muito pouco

nossos nomes estariam presos para sempre

em pedras

fincadas no chão

 

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grávida

estou grávida de mim mesma

ansiosa por me dar à Luz

parir uma edição melhorada

com menos erratas e observações

.

esperando o parto

parto para dentro

sem enjoos ou medos

repleta de muitas questões

.

embarazada de meu próprio ser

recebo a noite calmamente

e acordo sempre grande

maior

a cada dia

sinto desdobrar

cada centímetro de meu caminhar

e não preciso de ultrassonografia

para ver o que está por perto

.

tive a garganta cortada há alguns anos

mas finalmente percebi

que não careço amígdalas novas

para dizer o que eu mesma

tenho que ouvir

desejo

apenas afirmar

que me recuso a ser

uma executante inconsciente

da incongruência dos dias

pois vivo num estado interessante

presa à beleza de outrora

por isso são muitas as saudades

das verdades sutis

presentes

de um outro plano