lilith

escancaradamente

me abro

me lambo

me espreguiço

me esfrego

me entrego

me passo a mão

e vejo

cores

cordões dourados

em meus mamilos

cordas

que me balançam nua

embaixo da plena lua

na ponta da pirâmide

eu flor

expandindo-me em fluxos

de sangue

em vértices alheios

meninos estúpidos

indiferentes

a minha divindade

Anúncios

lua negra

e como uma deusa suja

preciso apenas

um fragmento

pra me reconstituir

cintilar

ouvir o grito das pedras

o choro das águas

.

a lua

guardiã das coisas

sabe

que a noite

ilumina

grutas

desfiladeiros

e sincroniza os ritmos

de minha solidão

.

e que até mesmo um incêndio

queimando árvore a árvore

pode ser apagado

por  uma brisa

de hálito doce

e cor de ébano

repleta de elementos

delicados

úmidos

e mágicos

 

xamã

vivem em mim índias ancestrais

que se aproximam acocoradas

cantando dançando pra chuva

abrindo fendas frestas

fazendo festa

confeccionando almas

.

são mulheres esqueleto

que perpassam meus ciclos

e transbordam

os vasos vermelhos de meu ventre

entre

inúmeros finais e recomeços

.

não sinto medo

dançar com a morte é o segredo

é peça

que a Vida me prega

enquanto sorri e se balança

entre os dedos de minhas mãos

inca

são quase cinco ciclos

treze luas quase cheias

brindando grandes penas

entre os meus cabelos

num movimento lento

.

a fumaça densa quase estática

suspensa entre paredes

se mescla aos lobos que correm em mim

as estrelas que sinto confundem meus céus

e provocam  uivos que cortam a noite

.

quero deitar na grama  sentir a chuva

esquecer o frio as intempéries

sonhar flauta  beijar flor

saltar das nuvens

me dissipar

.

comemorar a estranheza

de viver sobre a Vida

e repensar por que caí

onde ainda não pude

entender porque