conto

Pai meu que estais no céu

Estava de pé sob o sol escaldante do meio do dia 2 de julho de 1998, na quadra B do Parque das Almas, enquanto observava o coveiro investir repetidamente a marreta contra o escopo no reboco cru de uma das inúmeras catacumbas que a circundavam. Diana vestia jeans do pescoço aos tornozelos e uns coturnos gastos de alguns anos, apesar do calor torrencial daquela manhã de meio de ano, pois acreditava que a protegeria tal qual armadura, de algo que ainda não sabia bem o que era.

sua mãe apenas tinha dito << em 2 de julho, você irá ao Parque das Almas recolher os ossos de seu pai>>

Estava muito agradecida pelo nome que ele havia escolhido para ela, chegara até a pensar que o fizera, traumatizado pela esquisitice do seu, que exatamente por isso havia escolhido o mais lindo entre os nomes, várias vezes pedia: <<pai conta como foi pra escolher meu nome?>> e ele com paciência paterna repetia minuciosamente: <<minha filha! enquanto vários sugeriam nomes como Nívea, por causa da moça da novela fazendo sucesso, ou Maria, por ser nome de mulher direita, eu pensei em Diana, que é a deusa da caça na mitologia e como meu negócio é  caça, foi perfeito. Um sorriso fortuito sempre se abria quando a roleta da memória caía nessa história.

Voltou muitas vezes ao velório enquanto observava aquele sujeito magro de meia idade, com a pele tipicamente ressequida dos homens de vida dura, penetrar lentamente o reboco seco sem direito a adornos, dizeres nem tampouco flores, apenas nome e datas de nascimento e morte escritos em baixo relevo, provavelmente por algum graveto encontrado por ali ou mesmo pelo cabo da colher de pedreiro, do coveiro do dia, enquanto o cimento ainda não secara.

Transformara seu pai numa composição de certa estranheza, após uma noite inteira plantando florzinhas coloridas em todos os espaços entre o cadáver e o caixão barato comprado em seis prestações com cheque sem fundo na primeira funerária que ligou para o quarto do hospital onde passara exatos vinte e seis dias, e sentindo os cheiros dos cadáveres vizinhos e das velas sepulcrais que insistiam em chorar copiosamente aquela solitária noite.

Enquanto o homenzinho fazia força para alcançar a tumba, o cemitério estava praticamente sem transeuntes e a única pessoa possível ao alcance de sua vista era a vendedora de sacos de napa, talco e bolinhas de naftalina, que faziam o papel de urna funerária para os menos abastados, que dois anos após suas perdas, tinham que acordar seus mortos de sonos que, a priori, deveriam ser eternos.

Ela ainda custava a crer que o seu herói jazia ali, naquela gaveta sem graça, com cheiro de matadouro abandonado, há exatos setecentos e trinta dias. Na verdade ainda alentava a esperança de abrir a porta de casa e encontrá-lo assistindo tv ou jogando paciência em seu baralho embolorado cheio de marcas de tempo.

É verdade que o achava, lá no fundo, um pouco velho e isso ficava mais evidente a cada acontecimento escolar onde os colegas perguntavam em tom de sacanagem infantil se era pai ou avô. Passeou pelas lembranças distraidamente até que foi trazida de volta pelo baque do ataúde no chão e pela nuvem de seres peçonhentos despertada pelo espatifamento do caixão no solo de terra batida.

Pôde ver com os próprios olhos que a morte não leva consigo os cabelos, reconheceu imediatamente o paletó preto da maçonaria, apesar do carcomer do tempo, assim como a minúscula letra G abaulada por dois esquadros dourados na lapela e o anel imponente com a mesma letra do broche, incrustada numa bela pedra escarlate.

O mesmo anel que ela um dia havia pego emprestado sorrateiramente para exibir na escola e que havia caído de seu bolso furado em plena avenida Conde da Boa Vista no frenesi de um dia útil no centro da cidade do Recife e que uma vez resgatado havia rendido boas palpitadas em seu jovem coração.

Desde sempre sentia vergonha do nome de seu pai, escondendo ou abreviando o mesmo em situações onde tinha que escrever ou dizer sua filiação. E achava incrível o fato de sua irmã mais velha ter replicado o absurdo batizando o primeiro filho com a mesma graça, apesar de achar justa a homenagem.

Etealdo, filho de um tempo, onde era prova indiscutível de amor, batizar ao menos um filho, com composições esdrúxulas de partes dos nomes do casal. Ete de Etelvina e aldo de Romualdo. Etelvina, mulher fina que só vestia altura toalete, mangas compridas com abotoaduras de ouro e o mesmo broche de um pássaro dourado muito delgado na  gola  dos vestidos.  Exalava cheiro de coisa boa, e mantinha o cabelo cinza muito claro no laquê,  tinha a mão aberta das mulheres doces, o apetite das generosas e a altivez das inteligentes. Já seu avô parte de pai não chegara a conhecer, sabia apenas que era um homem duro, austero, que espancou o filho tantas vezes que o obrigara a procurar outros rumos enquanto ainda não havia chegado nem na sua segunda década de vida.

Quando Diana nascera, ele já passava dos 40, já havia tido um casamento aos 18, uma filha morta aos 3, envenenada pela empregada, com querosene e vidro, já havia fugido de casa, já fôra premiado na loteria e conhecido como o Rockefeller de Recife  (algumas sobrinhas o chamaram de tio rock até os seus últimos dias) já havia gasto quase tudo em jogo, bebida e mulher, já era alcoolatra.

Muitas foram as vezes em que acordara com sede no meio da noite e encontrara o pai caído no chão da copa, bêbado, sujo, roncando animalescamente ou ‘arriado’ sobre a direção do fusca marrom, com o carro a meio portão, entre a rua e a casa. E quantas vezes pedira pra ele ir pra cama. quantas brigas presenciara, sua mãe até puxou uma faca e ameaçou furar-lhe o peito certa vez.

Era um homem estranho, insone, nunca dormia uma noite inteira, suas noites eram da tv e dos livros, seu layout típico era composto de pesadas armações pras lentes míopes, camisa de mangas compridas bem engomadas (por vergonha da queimadura adquirida num foguete 12 tiros que atirou pro lado errado numa copa do mundo), um lenço perfumado no bolso de trás do lado direito, carteira de cigarro e  isqueiro no bolso da camisa (só gostava de camisas com bolso), bermudas ou calças com vincos feitos a ferro quente e alpercatas ou sapatos sempre muito limpos.

Era o Sr. Pessoa, ou simplesmente Pessoa, tímido, anti-social, culto (apesar de tudo), jogador de baralho e jogo de bicho (jogava todos os dias, os dois), maçom. Apaixonou-se por Aluísia, a moça bonita que passava em frente de sua loja na Rua da Praia. Ele descobrindo que ela trabalhava em firma de seguros na mesma rua, passou a mandar-lhe ofertas aleatórias que iam desde milho cozido até jantares com camarão e whisky e passeios em opala zero quilômetro. ele com seus quarenta e poucos, ela com quinze a menos e apesar de todos o acharem feio e sua futura sogra acha-lo tal qual um sapo, se  juntaram.

Certamente, tudo isso teve determinada e certeira influência para a mocinha nascida em Orobó, insatisfeita com sua condição e cansada dos penares que a vida trouxera. Menina da terra desde cedo fazia todo tipo de serviço, do roçado ao queijo, a partir dos onze em fábrica de fósforos e como se não bastasse era obrigada a dormir debaixo de um teto remendado, povoado de ratazanas, seres pelos quais ela  nutrira completo pavor desde sempre.

Sua mãe, Bernadete, vítima de seu tempo e ignorância, era professora da roça, mulher dura, dessas do sertão, impermeável, descontava na filha todo o amargor das mortes de filhos anteriores, somado a condição de viver casada com um homem, o qual nunca beijou, ou nunca viu nu. Um homem que executava suas obrigações conjugais de camisolão de algodão cru com abertura frontal na altura das genitálias

Severino, um homenzinho magro, desses que comem grandes quantidades e não engordam um grama sequer, vítima de xingamentos conjugais de vida inteira, provisor de borra de manteiga e achocolatados infantis perto de vencer que a fábrica de laticínios cedia aos funcionários mais antigos, e com os quais ele presenteava os filhos e netos semanalmente.

Ele era um desses avôs franzinos que vestia uma sunga folgada de tecido azul e que ia andando até a praia, quando eram possíveis banhos de mar em Rio Doce. No mais sempre foi uma figura decorativa a qual ela só tinha a obrigação de dizer: – a “bença” vovô! todas as vezes que o encontrasse.

O fato é que, com todo defeito, seu pai estava sempre lá, apesar de todo o resto, e era ótimo para ela acordar no meio da noite e vê-lo dormindo em frente a TV em chuviscos, era muito bom quando ele viajava e trazia consigo pijamas de flanela. gostava ainda de jogar buraco, trocar livros e opiniões, e, especialmente, nunca apanhar (foi só um beliscão, a vida inteira, e ele pedira perdão)

Voltar da feira de troca com uma bicicleta grande dentro do fusca foi um dos episódios mais emocionantes deles dois juntos, a recompensa magistral para ela depois de juntar o dinheirinho parco dos lanches de um ano inteiro. era uma das poucas coisas que o fizera sorrir enquanto sóbrio por quase uma vida.

Apesar de tudo ela estava agradecida ao pai, pela vida, pelas vitaminas matinais de abacate, pelos ovos fritos com a gema mole, pelos caldinhos de feijão banhados com o caldo da galinha enquanto cozia,  pelos sanduíches de pão bolachão com queijo manteiga prensado na frigideira, pelas mortadelas fritas, pelas asinhas de frango empanadas do japonês que ele comprava sempre que o bolso permitia, pelos pratos de batata frita com ovo e salsichas no restaurante da mesbla em muitos aniversários, pelo pão grelhado que perfumava as manhãs diariamente, pelo maltado especial que batizara de frapê, pelos carnavais curtidos no bloco das ceroulas em Olinda, pelas bolas de natal, pela defesa quase constante, pelas trocas, pelos livros e discos, pela postura, pela miopia, pela cara redonda e até pelos pés rachados.

E foi com lágrimas nos olhos, um aperto de saudade e uma pergunta que bailava em sua fronte tal qual letras neon em noites escuras, que recebeu do coveiro, o saco azul de napa onde o que restara de seu pai agora dividia um inócuo espaço com aleatórios fragmentos de talco infantil e singelas bolinhas brancas de naftalina. que ela olhou pro céu, de um azul muito claro e poucas nuvens e perguntou a si mesma:

– Pai, o que o tempo faz com a gente?

À guisa de resposta, resolveu partir logo dali sem saber bem que destino daria ao seu pai despedaçado, muito bem acomodado no saco sintético que amarrou no cós da calça, injuriada com a conclusão que era preciso dinheiro até para ter dignidade, sobretudo póstuma. carregou seu pai empacotado no banco dianteiro de seu fiat prêmio azul escuro e parou em vários cemitérios na esperança de achar um que coubesse em seu bolso. depois de rodar a tarde quase inteira e de ter a última conversa com seu genitor, resolveu que pararia no próximo sepulcrário e resolveria de uma vez por todas aquele imbróglio ainda que tivesse que assinar mais uma folha de cheque sem fundos.

E foi assim que guardou o que restara de seu pai numa vala comum, no chão de terra povoado de ervas daninhas, odores desagradáveis e cães desqualificados, no cemitério da Várzea com a promessa que voltaria em breve para intitular sua lápide. Extenuada pela experiência penosa, sentou no banquinho de cimento deteriorado e chorou, muito.

Duas semanas depois voltara lá conforme prometera, porém não encontrara mais seu pai, pois as letrinhas que tinha desenhado na terra onde o havia guardado não existiam mais, nem tampouco o pedaço de madeira escrito a giz de cera verde escuro, que fazia as vezes de epitáfio. Desolada, saiu dali decidida a encontrar seu pai onde quer que fossem parar os entes queridos depois de mortos, e foi assim que desapareceu quando decididamente pisou fundo no acelerador de seu Fiat prêmio, de olhos vendados, sob um sol de duas da tarde.

Diana Pessoa