namorada

estou aqui te adorando de longe

enredada em silêncios

dando-te chances

redenção

por tudo

que és

fostes

pelas bocas que beijastes

por cada uma de tuas singelas lembranças

.

estou aqui te adorando por dentro

me enredando em teus acordes

acordando em nós

pares de sorrisos estancados em fotografias

presos em cantares de amor

de predileção

.

eu  rosa

você

jardim de uma só flor

gaza

a paz nada pode fazer por nós

simples transeuntes aleatórios

pré fantasmas

aprisionados em muros

em potes de remédio

disputando territórios que a ninguém pertencem

serpentes ilusórias

rastejando em busca dos próprios rabos

.

acabou o sono

acabou o sonho

veja! tudo não passa de montagem

construções encomendadas

pra compor a fita

de toda essa estranheza sem sentido

fatos reunidos num imenso livro

tratado de incoerência

.

nossas mentes vagam

como meninos sozinhos debaixo de chuva

seres desolados

fomes que não tem fim

cortinas pesadas

veludo caro

comprado com lavagens genocidas

peremptória

 

não serei breve

.

estarei em sua janela

eterna

como as nuvens de Quintana

.

a longo prazo

eu bandeira permanecerei

apesar de suas escavações

.

então não direi nada

serei apenas chuva

ventilando mais uma

terra alheia

.

a certo prazo

tudo estará neutro

e você acabará

por ouvir

as verdades que não pude dizer

fogo

 o incêndio no posto ao lado

atingiu muito mais

que transeuntes e bombas de gasolina

.

a face da morte ficou

nas superfícies dilaceradas

dos homens derretidos na pista

.

o fogo pintou de horror

as caras

as fisionomias

preparou as silhuetas pra outra festa

e levou consigo qualquer possibilidade de reação

.

tudo perdeu o sentido

as palavras e os significados delas

os relógios e suas marcações

objetos e inutilidades