açoite

E agora
O que faço com essa dor?
Essa insistente companhia
Que escorre
Pelas minhas unhas
Pela linha d’água
De minha cara
Atônita
.
Sim, bem sei!
Tudo passa!
Mas até lá
O que faço?
Devo derreter ao sol do meio dia
Ou abrir sulcos
Em minha própria superfície?
O que devo fazer
Se com o tempo
Até os remédios
Perdem efeito?
.
Como não liquescer
Se não encontro
amparo respaldo abrigo
Nem um colo possível
Que suporte esse alguém doído
Que temporariamente me habita
.
Quem dera atravessar
Esse Eu deserto
A largos passos
Sem recorrer a mais dor
Ou quaisquer outros flagelos
Quem dera
Precisos ajustes
No meu coração
Na minha medicação
Ou ainda
Abraços genuínos
Espelhos amigos
Um sono tranquilo
Ou até mesmo
Uma armadura
Pequenos vislumbres de paz

meubem

porque há um porto qualquer nesses dias

um pier

um pavio

que me ascende

me incandesce

.

porque o que me causava medo

já virou mar

amor sem dor

e um halo furta cor

me faz transcender

como loba

de olhos abertos a sorrir a noite

.

porque confronto os meus desejos de fêmea

mulher que muito ama

menina e seus brinquedos

com as doses de céu que me preenchem

e chego em algo

que há no fundo

de seus olhos

presa

não terminou.

se o tivesse feito     talvez     a casa caísse

fosse

tudo pelos ares

sendo assim

arrumou um jeito de manter

os sapatos de bico fino

a garganta desinflamada

e as mágoas acumuladas anos a fio

.

continuou

fez as unhas    almoçou com a família

treinou as palavras   conteve os gestos

na terapia mentiu como nunca

manipulou toda emoção

e fez pose

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