inverno

estou no lugar reservado

para todos aqueles que não podem pagar

a ferrugem me cobre os dias

enquanto a Vida goteja intermitente

.

aqui é frio      molhado

a água virou vilã de todas as horas

a oxidar meus sistemas

gradativamente

.

meus pés estão gelados

e não há cobertor

ou meias suficientes

que aplaquem a umidade que me toma

.

respiro fundo

aspiro o branco   o cinza     e toda ausência de cor

que me enche

a vista

.

tenho muitas saudades

de saber quem sou

de ter

meu próprio chão

.

sendo assim

aproveito para anotar

inúteis questionamentos

o que somos?

.

fabricantes diários de merda e inconsistências?

sim! somos seres povoados de orgulhos e petulâncias

a camada de lama que nos cobre é espessa demais

para ser retirada numa única existência

.

de quase nada

sabemos muito

especialistas em adaptar

argumentos em nosso próprio favor

.

meros compositores de sofismas

com as caras cobertas de lodo

e os corações trancados

para tudo que desconhecemos

.

.

.

a tempestade continua

contínua

invadindo

os bastidores da tarde

.

fazendo desenhos

nos muros   calçadas   avenidas

além de composições sonoras dissonantes

que carregam consigo acidentes   imprevistos  derrapagens

.

sim! é inverno

e talvez    só nos reste fechar os olhos   as janelas

e continuar executando

nossa infindável trama de afazeres

açoite

E agora
O que faço com essa dor?
Essa insistente companhia
Que escorre
Pelas minhas unhas
Pela linha d’água
De minha cara
Atônita
.
Sim, bem sei!
Tudo passa!
Mas até lá
O que faço?
Devo derreter ao sol do meio dia
Ou abrir sulcos
Em minha própria superfície?
O que devo fazer
Se com o tempo
Até os remédios
Perdem efeito?
.
Como não liquescer
Se não encontro
amparo respaldo abrigo
Nem um colo possível
Que suporte esse alguém doído
Que temporariamente me habita
.
Quem dera atravessar
Esse Eu deserto
A largos passos
Sem recorrer a mais dor
Ou quaisquer outros flagelos
Quem dera
Precisos ajustes
No meu coração
Na minha medicação
Ou ainda
Abraços genuínos
Espelhos amigos
Um sono tranquilo
Ou até mesmo
Uma armadura
Pequenos vislumbres de paz

grávida

estou grávida de mim mesma

ansiosa por me dar à Luz

parir uma edição melhorada

com menos erratas e observações

.

esperando o parto

parto para dentro

sem enjoos ou medos

repleta de muitas questões

.

embarazada de meu próprio ser

recebo a noite calmamente

e acordo sempre grande

maior

a cada dia

sinto desdobrar

cada centímetro de meu caminhar

e não preciso de ultrassonografia

para ver o que está por perto

.

tive a garganta cortada há alguns anos

mas finalmente percebi

que não careço amígdalas novas

para dizer o que eu mesma

tenho que ouvir

desejo

apenas afirmar

que me recuso a ser

uma executante inconsciente

da incongruência dos dias

pois vivo num estado interessante

presa à beleza de outrora

por isso são muitas as saudades

das verdades sutis

presentes

de um outro plano

insignificante

quero aparecer

entre teus furtos de pensamento

fazer pausas no tempo

sorrir teus detalhes

regar teus segredos

e na película da tua superfície

cantar teus cheiros

.

e nessa louca composição de imperfeições

nesse mundo de coisas sem nome

namorar um vinho

delirar verbos

ouvir tuas cores

e mudar as significâncias de algumas funções

hausto

andei me perdendo por aí

em poços sem fim

acordando no susto

deslumbrando-me com novidades

sorvendo impunemente

sopros  embriagantes

me encantando

com quase tudo ao redor

podando incongruências

contactando

o mundo das não palavras

me entregando

à poesia

à dança de todas as coisas

tocando suave

o meu damaru

de olhos abertos

em pleno escuro

observando

A Vida e a Morte

diariamente

testando medos    sensações

ou alguma temporária incapacidade

um contínuo engolir de tempestades

e tantas outras coisas

que não se pode enclausurar

em meras expressões

.

agora vivo armando minha rede

em céus cheios de constelações

tentando entender

a sapiência do Todo

dando à palavra

o estatuto de obra de Arte

atravessando desertos    oasis

e dividindo meu amor com o mundo

refração

uma saída

uma fresta na profundidade

despi os sapatos e entrei

.

a minha frente o mar

em minhas costas o vento a soprar

uma palavra precisa    um concordar

e as aguas mornas tocaram meus pés

.

mergulhei

flutuei entre reticências e idealizações

me desenhei firme na vela nua

nadadora de céu aberto

fugitiva de qualquer aquário

.

há diversos tipos de navegar

e em meu peito há vento, leveza, sol

as doses são vastas mas a posologia da vida é precisa

tudo é perfeito!

e o amor, especialista em ultrapassagens

convida a travessias isentas de pré_ocupações

.

subo de volta em busca do ar

o azul me encanta além da conta

mas preciso ver a luz a imensidão do farol

a beleza de tudo

é que há sempre

um porto a vista

e  uma gaivota

em busca do voo perfeito.