querência

by jacek yerka

resolvi lixar as paredes  

regular o brilho

já que luz demais confunde encandeia

e atrai efêmeras asas

.

estou preparando a base

pra pintar tudo de azul

de arrebol em vários tons

enquanto analiso o desenrolar dos fatos

da vida

vou espessar os fluidos

separar o sólido  o racional

enterrar os sapos

limpar o caminho  o trono ao lado

polir o anel   abrir as grades

costurar o véu

.

enquanto me balanço

com coisas e cavalos marinhos

musicando lembranças confeccionando cenas 

rindo à toa por cima de clichês

chamando você de meu

amor

é

algo

raro

.

me perdoe perdi o foco

quase esqueci de dizer que eu

portadora de versos e bla bla blás

declaro

do alto do meu coração alado

que amar é importante

já que existir é apenas um rito de passagem

cura

você nem sabe

mas estive te olhando a dormir

medindo seus pedaços

soprando preces em seu ouvido

.

entrei em teu subterrâneo

mergulhei de olhos abertos

em tua imensidão

descobri vales campinas

labirintos vivos

furta-cor

.

joguei feitiços sobre teus pés

beijei feridas ainda abertas

vi arquétipos em tuas costas

invoquei curandeiros pajés

seres de teu inconsciente

.

você moveu algo

por baixo de meu peito emplumado

soltei gritos uivos desejos

e transformei lágrimas

em água benta

selvagem

enquanto as águas do tempo

cozinham todas as coisas

eu sigo em paz

.

enquanto as marés

trazem e levam

os dias e as noites

me mantenho forte

.

enquanto a águia sobrevoar meus céus

vou decifrando

os mistérios de meu caminhar

.

enquanto a luz

me preencher

vou seguindo

amando o vento

.

enquanto o soar dos tambores

e a chuva dos maracás

acelerarem meu coração

me deixo emocionar

.

espalho meus olhos

nos rios

na sabedoria das árvores

leio todos os pássaros

encantada

tocada pela grandeza

que Sua música abriu em mim

além mar

decidi que hoje não volto pra casa

acordei congelada esta noite

os olhos sedentos de distância

botando efeito na fotografia do mundo

.

ainda existem tons desconhecidos de azul meu amor?

talvez

em labirintos  perdidos no índigo blue

um limbo intervalar

um apart-lunar

dimensões invisíveis

a primeira vista

.

além

da linha do horizonte

do raciocínio

uma sereia ilusória

não sei se realidade

ou memória

uma Vênus cansada

em busca

de um Netuno impossível

lua negra

e como uma deusa suja

preciso apenas

um fragmento

pra me reconstituir

cintilar

ouvir o grito das pedras

o choro das águas

.

a lua

guardiã das coisas

sabe

que a noite

ilumina

grutas

desfiladeiros

e sincroniza os ritmos

de minha solidão

.

e que até mesmo um incêndio

queimando árvore a árvore

pode ser apagado

por  uma brisa

de hálito doce

e cor de ébano

repleta de elementos

delicados

úmidos

e mágicos

 

xamã

vivem em mim índias ancestrais

que se aproximam acocoradas

cantando dançando pra chuva

abrindo fendas frestas

fazendo festa

confeccionando almas

.

são mulheres esqueleto

que perpassam meus ciclos

e transbordam

os vasos vermelhos de meu ventre

entre

inúmeros finais e recomeços

.

não sinto medo

dançar com a morte é o segredo

é peça

que a Vida me prega

enquanto sorri e se balança

entre os dedos de minhas mãos