selvagem

enquanto as águas do tempo

cozinham todas as coisas

eu sigo em paz

.

enquanto as marés

trazem e levam

os dias e as noites

me mantenho forte

.

enquanto a águia sobrevoar meus céus

vou decifrando

os mistérios de meu caminhar

.

enquanto a luz

me preencher

vou seguindo

amando o vento

.

enquanto o soar dos tambores

e a chuva dos maracás

acelerarem meu coração

me deixo emocionar

.

espalho meus olhos

nos rios

na sabedoria das árvores

leio todos os pássaros

encantada

tocada pela grandeza

que Sua música abriu em mim

além mar

decidi que hoje não volto pra casa

acordei congelada esta noite

os olhos sedentos de distância

botando efeito na fotografia do mundo

.

ainda existem tons desconhecidos de azul meu amor?

talvez

em labirintos  perdidos no índigo blue

um limbo intervalar

um apart-lunar

dimensões invisíveis

a primeira vista

.

além

da linha do horizonte

do raciocínio

uma sereia ilusória

não sei se realidade

ou memória

uma Vênus cansada

em busca

de um Netuno impossível

lua negra

e como uma deusa suja

preciso apenas

um fragmento

pra me reconstituir

cintilar

ouvir o grito das pedras

o choro das águas

.

a lua

guardiã das coisas

sabe

que a noite

ilumina

grutas

desfiladeiros

e sincroniza os ritmos

de minha solidão

.

e que até mesmo um incêndio

queimando árvore a árvore

pode ser apagado

por  uma brisa

de hálito doce

e cor de ébano

repleta de elementos

delicados

úmidos

e mágicos

 

radical livre

uma imensa árvore sobre o mar

segura o balanço de meu vai e vem

enquanto eu sinto o vento o tempo

e algumas outras coisas

que não sei nomear

.

quero ficar longe e perto

de todos

de tudo

ter a linha do horizonte

sempre

ao meu alcance

.

pois paredes me cansam

as pernas

a mente

mentindo o tempo todo

sobre si mesmas

.

acho que vou mesmo partir

mergulhar no lilás do arrebol

enquanto cicatrizes se constituem

e o coração

pare de se ferir