infância

by desenhando o mundo (tumblr)

de vez em quando ainda volto lá

açucareiro de prata

bolas de natal

fofuras de fubá

.

as goteiras musicadas

à travessa cor de gelo

o álcool embalando o pai

.

de vez em quando ainda sinto

gritos e gatos no meio da noite

desamor assombrações

o desprezo da mãe

.

de vez em quando

ainda ouço as rosas

delicadas confidentes

sugerindo cores ao invés de lágrimas

love story

by art for adults (tumblr)

seu amor de peter pan

me deixou cicatrizes decorativas

e certa revolta

.

seu pedido de enlace

entre simplicidade e rochas

me causou esperanças e esperas

.

seus neurônios desgastados de criança grande

me levaram a uma gangorra de situações

édipos e monstros adormecidos

.

seu estado de dormência latente

me fez caminhar… em meus próprios campos

minados

desapego

by in-dissoluvel (tumblr)

descobri uma fenda em minha cabeça

um baixo relevo uma vala

por onde passam coisas que não sei

talvez explique algumas desordens

talvez justifique formas inconstantes

de Ser

.

a fenda recém descoberta

formula questões intrínsecas

decifra dores

enxaquecas existenciais

ângulos de estreita estranheza

que  me matam lentamente

mas isso não me afeta

já morri tantas vezes

conheço a sensação

o gosto de sangue na boca

o estrangular na garganta

que quando acaba

resulta em outro

sonho

gástrico

by kate powell

não sei o que me toma

só sei que me queima

o estômago me tira o sono

e me leva a  rabiscos

que me enquadram

num papel de santa de louca

ando carente de definição

.

sei que é madrugada

mas a cama insiste em não me querer

sozinha  me agarro num poema

plástico escorregadio

um mergulho em letras e explicações

ainda assim  as vontades não me deixam

as vozes se calam   respeitam a métrica

a sonoridade da ebulição me leva

.

preparo um chá de flores

engulo o comprimido o vinho

aspiro hibiscos respiro saudade

e espero meu  tempo parar

pranto do rio

fotografia by diana pessoa

fotografia by diana pessoa

há um rio em mim que chora

e seu pranto diariamente me banha

.

de não muito longe

ouço o triste latido

de um cão que está no rio

que jaz no rio

já não é mais cão

é apenas algo inerte intrépido

tão feio

invisível

.

aquele que outrora fora amigo

agora se decompõe em meus olhos

.

o cão e o rio

enquanto vivos

nada sabiam de seu destino

não sabiam da verdade sobre os homens

o rio e o cão

agora vivem a mesma morte

.

nenhum dos dois

poderia supor tão triste fim

dejetos mau cheiro

putrefação

.

nem o cão nem o rio esperavam

que lhes dessem de ombros

que lhes dessem as costas

nós somos mesmo tão solitários

que só nos restam os pássaros

as moscas

e o reflexo na lama

.

aquele cão sou eu

aquele rio somos nós

presos em calabouços úmidos

por onde os homens limpos passam

e fecham os olhos

fotografia by diana pessoa

fotografia by diana pessoa

nascedouro

by tumblr

papel espaço plástico

lugar de brincar

de ser quem quiser

.

na folha em branco

passo tudo a limpo

invento passados

presentes perfeitos

.

enquanto vazio

vai deixando de ser

esboço seres

intenções

rascunho eus tus

nós

deposito mágoas

confissões

abro sorrisos

traços mágicos

desenho versos

penso em formas variadas

maneiras de dobrar

mundos que se desdobram

ao alcance de minha mão