a fatalidade

é uma senhora densa       PESADA

que pode te visitar

a qualquer instante

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aplascentada

acordei com a cabeça doendo

sentindo o peso da madrugada rastejante

sono rasteiro  inquieto

o cheiro da morte rondando tudo

a carne fria

os pés ainda manchados de sangue

a anemia aguda

a boca branca

o sangue em bolsas

descendo em gotas

pintando de bordô os lados de dentro

as rezas escorrendo pelas paredes

o terror impregnado em cada hora

a arrastar o tempo

dor em toda parte

inchaço palidez

algo descolou

.

tudo aqui é tristeza  pavor

olhos vermelhos    chorosos

o medo na espreita a todo instante

enquanto enfeites de porta povoam o corredor estéril

com nomes de crianças

que chegaram em paz

.

foi tudo assim, rápido demais

por um triz

por muito pouco

nossos nomes estariam presos para sempre

em pedras

fincadas no chão

 

morte

sei que estais por perto

que circundas sorrateira

o dia   a noite

as madrugadas

sei que estais logo depois do ocaso

de acaso por vezes te disfarças

mas nunca enganas

pra onde levas aqueles que beijas?

quais os teus encantos ?

por que te vestes do que não és?

por que recorres a dor, se nem precisas?

por que passeias pelas cabeças e corações trazendo tanto pavor

se és a única certeza que carregamos?

o que a vida é para ti?

o contraste que precisas para se sobressair?

ou o lugar por onde passeias sorridente?

porque não te encontramos na escola?

por que não sabemos lidar contigo?

por que nos transforma em crianças apavoradas?

és amiga do senhor dos medos?

mas o que há depois dele?

não podes nos contar?

o que seria de nós sem tu?

a vida seria insuportavelmente inacabável?

perambularíamos como vampiros sem fim?

que fim teria tudo?

enfim

quando for a hora minha e tua

quero pintar meus olhos de negro e te encarar de frente

provavelmente lutarei

não me leve a mal

não me ensinaram a morrer

colapsando

somos experimentos emocionais

joguetes das parcas possibilidades

envenenados com doses cavalares

de transgênicos transgêneros

politicagem violência agrotoxidade

e variadas desordens

o que somos?

vítimas? vilões?

cavadores de nossas próprias covas.

.

somos caldeirões

misturando complexas matérias primas

ignorantes

matando morrendo por quase tudo

transitando em desertos sem fim

entre flores e ervas daninhas

microondas

redes além céu além mar

.

somos infestações

de variáveis e expectativas

vivendo por um triz

um tiro

ou invasão de qualquer ordem

paralisados de dor de medo de ansiedade

e sucessivas escolhas equivocadas

.

somos língua sexo vísceras

sabemos de muito pouco quase nada

fabricantes diários de merda

e outras tantas secreções e decrepitudes

não podemos com a TPM

com os hormônios com o estresse

queimamos nossa própria casa

sofremos todo tipo de incoerência

e ainda assim

insistimos em continuar fazendo

pessoas por diversão.

inverno

estou no lugar reservado

para todos aqueles que não podem pagar

a ferrugem me cobre os dias

enquanto a Vida goteja intermitente

.

aqui é frio      molhado

a água virou vilã de todas as horas

a oxidar meus sistemas

gradativamente

.

meus pés estão gelados

e não há cobertor

ou meias suficientes

que aplaquem a umidade que me toma

.

respiro fundo

aspiro o branco   o cinza     e toda ausência de cor

que me enche

a vista

.

tenho muitas saudades

de saber quem sou

de ter

meu próprio chão

.

sendo assim

aproveito para anotar

inúteis questionamentos

o que somos?

.

fabricantes diários de merda e inconsistências?

sim! somos seres povoados de orgulhos e petulâncias

a camada de lama que nos cobre é espessa demais

para ser retirada numa única existência

.

de quase nada

sabemos muito

especialistas em adaptar

argumentos em nosso próprio favor

.

meros compositores de sofismas

com as caras cobertas de lodo

e os corações trancados

para tudo que desconhecemos

.

.

.

a tempestade continua

contínua

invadindo

os bastidores da tarde

.

fazendo desenhos

nos muros   calçadas   avenidas

além de composições sonoras dissonantes

que carregam consigo acidentes   imprevistos  derrapagens

.

sim! é inverno

e talvez    só nos reste fechar os olhos   as janelas

e continuar executando

nossa infindável trama de afazeres

açoite

E agora
O que faço com essa dor?
Essa insistente companhia
Que escorre
Pelas minhas unhas
Pela linha d’água
De minha cara
Atônita
.
Sim, bem sei!
Tudo passa!
Mas até lá
O que faço?
Devo derreter ao sol do meio dia
Ou abrir sulcos
Em minha própria superfície?
O que devo fazer
Se com o tempo
Até os remédios
Perdem efeito?
.
Como não liquescer
Se não encontro
amparo respaldo abrigo
Nem um colo possível
Que suporte esse alguém doído
Que temporariamente me habita
.
Quem dera atravessar
Esse Eu deserto
A largos passos
Sem recorrer a mais dor
Ou quaisquer outros flagelos
Quem dera
Precisos ajustes
No meu coração
Na minha medicação
Ou ainda
Abraços genuínos
Espelhos amigos
Um sono tranquilo
Ou até mesmo
Uma armadura
Pequenos vislumbres de paz