nação

o tempo segue

enlameado

de ditos e não ditos

que saem do prumo

e causam desmantelos

sem tamanho

 

as palavras se perdem

entre non senses diários

notícias falsas bolsas falsos mestres

a ignorância reina soberana

na terra dos absurdos tropicais

 

o sol brilha mais uma vez

a esperança?

nem tanto

agarrada ainda às barras do sono

lembro que encarceraram o Rei

a cabeça lateja

qualquer hora explode

 

espreguiço

tento respirar

meço a pressão

bebo café em pó com açúcar e cal

de corante e ácidos me enveneno em pequenos goles

enquanto mastigo devagar

que é pra ajudar a digerir

toda essa paranoia que impera

em nossa nação

 

agrotóxico caça matança

violência fome desespero

abandono armas de fogo ofensas internacionais

ódio as minorias

patrimônio vendido a preço de bananas

a mulher minimizada

onde vamos parar?

 

penso penso penso

e chego a consideração

que no fundo

 

ninguém está livre

de maus contatos e fios partidos

de pequenos equívocos surtos consertos

ninguém está livre das vendas

cuidadosamente preparadas para causar confusão

 

no fundo a constituição não é levada a sério

não há quem resguarde os nossos bens direitos patrimônio

viramos joguete de um senhor nulo

que atira diariamente no próprio pé

 

no fundo

no fundo

a jornada cansa

e pequenas

muito pequenas

coisas

nos levam

de mãos dadas

até a beira

do abismo mais próximo…

 

pois é

a vida é mesmo essa coisa plástica

imprevisível

tudo parece tão bem e de repente descarrila

e é duro perceber que as opções que vc tanto quer

e merece

simplesmente

não existem

 

#lulalivre

 

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2019

certas melodias superam tudo

gemidos em noite silenciosas

orações impregnadas nas tintas dos quartos

brigas de casais em alto e bom som

a caixa d´água avariada se debulhando em gotas intermitentes

anúncios de falecimento

discursos sem cabimento

um pedido de socorro num carro em movimento

choros de mães que perderam seus filhos

.

cubro os ouvidos com espuma cor de laranja

e particiono a minha inquietação em diferentes slots

mas continuo atormentada

sei que não devo tocar nesse assunto

mas começo a me perguntar

se esse não é um status definitivo

assim como mancha de sangue que fica pra sempre

.

tento me apaziguar

alinhar os chakras

experimento raja hatha purna yoga

tomo porres de lavanda

mas continuo custando a acreditar

em tudo que tem acontecido

nos cortes          nas antecipadas mortes

e em toda essa barbárie

que se apresenta em tons de rosa e azul

 

 

 

amargar

Estive perdida num espelho quebrado
Percorri muitos caminhos
Naveguei por aí
Tentando voltar
Perdi a capacidade de ver a mim mesma
Fui condenada a ver minha casa de longe
A longe ter os que mais amava
Recorri a tudo
Auto mutilações auto destruição
Vitimização
Espalhei veneno e males mil
Caí muitas vezes no mesmo poço
Implorei por colo apoio amparo
Me despetalei fiquei nua
Andei sozinha por estradas perigosas
Amarguei escondida em cortiços perdidos
Perdi minha poesia minha menina meu coração
Chorei tudo que pude
Até que finalmente

Sequei.

caos

Ando meio mexida por dentro
Tentando não pensar nos fatos
Tenho me perguntado quantas décadas são necessárias para me acostumar com as coisas da Vida…

Me pergunto
pelo que sinto
Ou sentia
Já não sei bem
Parece que algo se perdeu nas decepções diárias
Ou
será apenas o meu idealismo desenfreado a jogar desejos – modelos perfeitos – em minha cara?

Me pergunto
sobre as dependências
As azedas conveniências
Me pergunto sobre vícios destemidos
Que TUDO derrubam
Enquanto a convivência me observa
Com ares de moça séria e me dá rasteiras semanais

Me pergunto
Que vida incoerente é essa?
Não da pra trocar ou substituir por outra?
E aquela dos álbuns de fotografia com todos presentes, felizes, não dá pra ser?

Me pergunto
Como pode
Uma minoria estrangular uma nação?
Se Trocar floresta por cifrão ?
Tirar o T da alimentação ?
Eleger ignorantes pra direção ?
Meu Deus
De que vale a constituição ?
Se não há resguardo asilo ou saída para tantos

Me pergunto
Vou ou fico?
Sim ou não?
O que é que finalmente
Vale A PENA?
Será que tudo precisa mesmo de lógica e consideração?

E as respostas? Onde estão?
No peito? Nas gavetas? Nos espaços em branco?
Nos desentendidos? Nos não ditos?
Na violência entranhada nas dobras do dia?
Nos editoriais? Nas mídias sociais?
Já sei já sei
Talvez nos livros de filosofia
Nas bulas
Ou nos extensos manuais da ABNT

O que me consola
É que
Qualquer dia
De qualquer forma
Será Futuro
E estaremos velhos
Eu
Os mal entendidos
E os desapontares.

ano novo

É tempo
De arrancar erva daninha
De limpar o terreiro
De preservar as sombras            as árvores
Mesmo as mortas

.
É tempo
De silenciar
De cuidar dos pés
De dividir as frutas
Com amigos       insetos       pássaros
.
É tempo
De varrer   limpar   tirar
Toda merda do caminho
Todo caco pedra chatice
Toda roupa paralisada no armário
.
É tempo de respirar
De espreguiçar intensamente
De descartar o que não serve
De limpar a paisagem
De aguar as plantas
.
É tempo de fazer Planos       Promessas
Traçar metas
Escolher caminhos
Aproveitar o dia como um mergulho
É tempo de finalizar
.
Feliz ano novo